Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 5 (Final)

Quarta-feira, 11 de março. Estamos em uma pandemia

Quando o guia leu a lista dos passageiros para embarcar no ônibus para o Paraguai, por volta das 6 da manhã, nossos nomes não estavam lá. Por um atrapalho no atendimento virtual da agência, nosso passeio havia sido marcado para o dia 12 (quando não estaríamos mais em Foz do Iguaçu) e, consequentemente, não estávamos entre as pessoas que poderiam cruzar a fronteira. O guia ainda tentou convencer o atendente do quiosque da agência no hotel de que dava para nos levar assim mesmo, mas ambos chegaram à conclusão de que poderíamos ter problemas. Solução: iríamos na segunda viagem do dia, às 9 horas, aproveitaríamos para fazer compras até as 11 horas, quando pegaríamos a van para uma visita guiada por Ciudad Del Este e em Salto Monday, as belas cataratas paraguaias, em Presidente Franco, cidade vizinha.

No pouco tempo entre o desembarque no Paraguai e a hora de pegar a van para o tour, praticamente corremos pelas lojas à procura de miniaturas e Funko Pop, mas chegamos no ponto de encontro na hora marcada. Na minivan azul, fomos recebidos por um rapaz simpático que explicou, em excelente Português, que o passeio seria só com a gente, ele como motorista e outro guia, que tinha ido ao banheiro e chegaria em breve. Escolhemos um lugar de frente para o ar-condicionado, colocamos as sacolas sobre o último banco do carro e o rapaz logo chegou. Breves apresentações e lá fomos nós pelas ruas do centro, ouvindo as explicações sobre a origem da cidade, os nomes que ela já teve e algumas informações geográficas.

As falas até a primeira parada – uma igreja em forma de Navio – foram estritamente profissionais. O guia falava, com um português lento, explicado e sem sorriso, e nós ouvíamos. Mas entre a igreja católica e a Mesquita Del Leste, falei que vi o último gol de Salvador Cabañas pela seleção paraguaia, no estádio do Arruda, contra a Seleção Brasileira, em um difícil 2×1 para a Canarinha. Ele respondeu apenas com um sorriso discreto e imediatamente considerei minha tentativa de diálogo frustrada, mas, alguns quilômetros depois, ao passar em um estádio, ele lembrou de Ronaldinho, o Gaúcho, e fez piada com o fato de ele estar preso no Paraguai. Estava aberta a janela diplomática entre nós.

No caminho até um dos parques da cidade, o guia e o motorista começam a falar em Guarani entre si, o que nos incomoda, pois é um idioma completamente desconhecido para a gente e para a maior parte dos brasileiros. Imagino o que eles devem ter falado:

— Vamos ver se esse casal sabe falar Guarani?

— Vamos. E aí, pessoal, para onde vocês estão indo agora?

— Não, são sabem. Maravilha, podemos comentar qualquer coisa e eles ficarão com essas caras de quem não estão entendendo nada.

Nunca vou saber o que, de fato, eles conversaram. Aquele diálogo se perdeu ali dentro daquela van, e tenho certeza que hoje os dois nem lembram de nós, muito menos do que conversaram. A única maneira de evitar a continuidade dessa situação era questioná-los sobre algo que os deixassem inseguros nos comentários.

— Aqui no Paraguai as crianças têm aula de Guarani e Espanhol na escola?

— Si, sim. São nossas duas línguas maternas, mas na escola também aprendemos Português e Inglês. — Respondeu o guia, lentamente, e prolongando todos os /r/ com uma dicção invejável.

— Então está explicado, vocês dois falam Português muito bem. Até achei que você (apontei para o motorista) fosse brasileiro, quando entrei no carro. — relembrei, e ele pode ter achado que era exagero meu, mas era verdade.

— Obrigado.

— Obrigado.

— E nas ruas, no dia a dia, o pessoal fala mais Guarani ou Espanhol?

— Depende, a gente não percebe que está falando uma coisa ou outra. Nós dois aqui falando em Guarani, vocês devem achar que estamos falando mal de vocês. Não, não estamos – disse sorrindo – é que entre a gente é natural e nós nem percebemos.

A conversa sobre o idioma foi interrompida porque chegamos no parque, “construído pelo ditador Alfredo Stroessner”. Percebi que ele mastigava todas as letras ao pronunciar o nome “ditador”, como se rangesse os dentes no /r/ final. Depois nos mostrou a casa onde morou “o ditador Alfredo Stroessner” e, sim, a pronúncia parecia ser de asco, e não de orgulho. Alívio. Descemos em um açude em frente à Universidade e demos conta de que tudo estava vazio, mas sequer nos perguntamos por qual motivo (pois quem está de férias tende a achar que o mundo inteiro está na mesma condição ou a pensar que todo dia é domingo). Tiramos algumas fotos em um anfiteatro colorido e fizemos comentários sobre o motorista e o guia, enquanto eles certamente faziam o mesmo, sobre a gente, enquanto nos esperavam perto da van.

A parada seguinte foi em uma tradicional Chiparia, onde compramos chipas de vários sabores (um bolinho de farinha de milho e farinha de mandioca), broa (feita com massa de mandioca) e sopa paraguaia, que na verdade é um bolo salgado, mas guardamos para comer quando chegássemos ao hotel. O cheiro bom ficou no carro e o motorista e o guia voltaram a falar em Guarani. Depois, fomos a uma bela catedral, e o rapaz falou sobre a religiosidade do povo paraguaio: católico, em maioria. Aproveitei a leveza da conversa para perguntar sobre os carros que havia visto nos dois dias que andávamos por lá:

— Vi que os carros aqui têm uma logo na dianteira e outra na traseira. Por que isso?

— Hum. Não sei. Acá muitos carros vêm ilegalmente da China, entram pelo Chile e as oficinas trocam o lado da direção. Compreende? Lá, a direção dos carros fica onde aqui anda o passageiro, é invertido, então o pessoal faz essa mudança aqui!

A resposta sorridente e sincera me fez observar quase todos os carros dali até o destino seguinte: Saltos Monday, em Presidente Franco, que fica ao lado de Ciudad Del Este. Assim como os carros, as casas e o comércio na beira da estrada são, na maioria das vezes, pobres e com sinais de improviso em uma parte ou outra. As pessoas caminham sorridentes na rua ou cortam os carros em motocicletas de poucas cilindradas.

— Duas coisas sobre este lugar onde estamos: muitas pessoas acham que Saltos Monday fica em Ciudad Del Este, mas na verdade estamos em Presidente Franco. A segunda é que aqui é onde foi descoberta a Stevia, um conhecido adoçante natural usado no mundo todo.

Voltamos do Parque Municipal de Saltos del Monday sem conversar muito, apenas observando os paraguaios do lado de fora do carro, em uma quarta-feira comum de março. Passamos por duas unidades de Saúde com o nome do ex-presidente Franco, o que diz muito sobre a política local nas últimas décadas, e com os símbolos da cidade, a bandeira nacional e a marca de Itaipu. É um país pobre e, talvez por ciência de sua condição econômica desfavorável, tenta se reerguer com organização e orgulho. Nos despedimos do guia e do motorista no mesmo shopping em que nos encontramos horas antes. Pedimos para eles nos ensinarem “obrigado”, em Guarani.

— Aguyjé!

— Aguyjé! Até mais!

Mais uma visita ao cassino

Foi só conectarmos os celulares ao wi-fi do shopping para recebermos as diversas mensagens de vários grupos e os inúmeros links sobre a mesma notícia, que mudaria tudo a partir dali: A Organização Mundial de Saúde (OMS) havia reconhecido que estávamos em uma Pandemia de Covid-19. Naquele momento não conseguimos imaginar quais consequências viriam a partir daquela declaração. Ficamos preocupados, limpamos as mãos com álcool talvez pela ducentésima vez no dia e decidimos esperar por ali mesmo por mais uma hora, quando pegaríamos o ônibus de volta para o hotel.

Minha garganta estava seca, tão seca que chegava a uma dor aguda. Decidi subir sozinho para comprar água mais barata e, claro, aproveitar para revisitar o cassino em busca de mais detalhes que depois eu transformaria em contos. Subi as escadas apressado e, no último piso, deparei-me com o cassino fechado.

— O governo decretou que cassinos, colégios, universidades devem ficar fechadas por causa da Covid-19 — um funcionário fardado explicava para um casal de brasileiros.

— Que absurdo! Ontem já estivemos em Assunção e o cassino estava fechado, viemos para cá porque talvez estivesse aberto. Não pode abrir uma exceção? — respondeu a mulher, insatisfeita com a resposta. O homem permaneceu calado, mas olhava para mim como se esperasse ouvir alguma fala de reprovação dirigida ao funcionário, o que não aconteceu.

— Não podemos abrir. Se abrirmos, podemos ser multados. Multa. Alta. Olha acá o decreto — apontou para o papel colado na porta do cassino.

Desci as escadas com as águas e contei à Nara o que ocorrera. Nos demos conta de que a universidade estava fechada pelo mesmo motivo. Voltamos no ônibus sentados no lado que dá para o pôr do sol e impressionados com a quantidade de pessoas e de motos que se aglomeravam para passar na estreita Ponte da Amizade, de volta ao Brasil após mais um dia de trabalho. O calor era intenso, e o cheiro do álcool que usamos cada vez que tocávamos em algo, me deixava um pouco enjoado e me fazia lembrar momentos ruins da minha infância: quando minha mãe embebia um pano de algodão em álcool e colocava na minha testa para baixar a febre.

Em frente ao nosso hotel, descemos do ônibus junto com cerca de dez outros turistas. Sequer lembrei de citar o verso de Ascenso Ferreira ao ver o letreiro vermelho do “Bogari”, porque um gesto simpático e cordial repetido pelo guia nos deixou assustados: na porta do ônibus, ele agradeceu a cada passageiro, um por um, com um forte aperto de mão.

Foi a última vez que cumprimentamos alguém com um aperto de mão.

Quinta-feira, 12 de março. A longa viagem de volta

Acordamos às 1h para terminar de arrumar as malas, tomar banho e pegar a van para o aeroporto, onde esperaríamos o voo para Guarulhos, previsto para as seis horas. Assim que levantei, percebi que a garganta continuava seca, mas que já não tinha o corpo tão quente, talvez uma febre leve, que me fizera deitar logo depois que chegamos da pizzaria. A barriga dava voltas e vez por outra voltavam os calafrios que me deixavam assustado. Quando fui calçar as botas com que sempre viajo, senti um pouco de tontura e vontade de vomitar. Talvez fosse a sopa paraguaia que comemos quando chegamos ao hotel, mas que já estava fria, e que somada ao queijo e ao bacon da pizza tenham feito um estrago em mim, mas meu medo é que fossem sintomas da Covid-19.

Perto da 1h30, a van gelada nos deixou no aeroporto, mais gelado ainda. Evitamos sentar nas mesas da praça de alimentação, pois o movimento por lá era grande. Nos dirigimos logo para a área de embarque, habitualmente mais vazia, e no check-in a funcionária da gol nos apresentou uma proposta que nos pouparia algumas horas no aeroporto em São Paulo: “Vocês saem daqui às 5h para o Galeão, no Rio de Janeiro, e às 9h pegam o voo para o Recife. Se vocês forem por Guarulhos, chegarão em Pernambuco lá pelas 17 horas. É mais vantagem”. Sim, era mais vantagem e nos livraria de entrar no epicentro da agora Pandemia no Brasil.

Em frente ao portão de embarque, tumulto para formar fila e muitas pessoas de máscara. A ideia de que “só quem estiver doente deve usar máscaras” nos assustou e, apenas com um olhar, decidimos que seria a hora de nós também cobrirmos o rosto com as máscaras que meu pai havia nos dado seis dias antes, ainda no Recife. De máscaras, na caminhada lenta pelo corredor do avião até as nossas poltronas, os olhares de susto ou de desdém agora também vinham na nossa direção. Sentamos, higienizamos os apoios de braços, as bandejas, a revista e até a janela da aeronave. A viagem até o Rio não teve turbulência e o tempo estava limpo, mas foi longe de ser tranquila.

Sem máscaras, passamos pouco tempo no aeroporto do Galeão, apenas o suficiente para comermos sanduíches com café na fila de embarque. No avião, soubemos que haviam nos encaixado na última fileira, o que me impedia de deitar o encosto para aliviar um pouco das dores nas pernas e a cólica. O frio também era intenso, e estávamos certos de trocar por algumas das cadeiras que julgávamos vagas nas fileiras à nossa frente. De repente, vários integrantes da comissão técnica do Sport Recife entraram no avião e se acomodaram pela aeronave. Compreendi que as cadeiras vagas seriam ocupadas pelo time de futebol rival ao meu. Mas era o time sub-23. Comentei com Nara que eles deveriam ter jogado no dia anterior, tiveram contato com muita gente e teriam contato com muitos outros na próxima semana, por isso, era melhor colocarmos novas máscaras, mais uma vez. Limpamos tudo com álcool e o avião decolou para o Recife.

Perto da capital, o tempo estava chuvoso e a visibilidade era quase nenhuma. O avião fez uma rota incomum antes de posar. Meus ouvidos doíam como sempre, mas não com a intensidade da ida, talvez pelos comprimidos de paracetamol que eu havia tomado nas últimas horas.

[Mensagem de texto – Grupo da Família]

Eu: Chegamos.

Pai: Graças a Deus.

Mãe: Graças a Deus

Eu: Agora é pegar o Uber.

No saguão do Aeroporto Internacional dos Guararapes, nenhum sinal de pandemia. Vida normal e despreocupada. Usamos álcool toda vez que tocamos em algo, até mesmo no próprio celular. Jogamos a mala no banco de trás do carro do Uber para não perdermos tempo. Só queríamos chegar em casa.

O motorista inexperiente errou o caminho e perdeu-se várias vezes pelas ruas castigadas pela chuva até encontrar o nosso endereço. Ao entrarmos no prédio, a sensação era de alívio por concluirmos uma jornada tensa em que evitávamos contato com um inimigo invisível e, até então, pouco conhecido até pelos cientistas.

Abrimos a porta de madeira e acendemos a luz do apartamento com escuridão de dias fechado. Deixamos as malas, os sapatos e parte das roupas perto da porta. Não tínhamos certeza sobre meus sintomas, nem se havíamos sido infectados durante a viagem. Decidimos que não sairíamos de casa até termos alguma certeza.

O que aconteceu depois

Depois da viagem, iniciamos um isolamento voluntário que duraria quatorze dias (como era recomendado), mas que se prolongou conforme o necessário, seguindo todas orientações das secretarias municipal e estadual de Saúde, e da OMS.

Pesquisas mostraram que pessoas assintomáticas transmitem a doença, e que, além de gotículas de espirro, fala ou tosse, a contaminação pode se dar por aerossol. O uso de máscaras passou a ser recomendado para todas as pessoas, assim como o distanciamento.

Não há certeza se as pessoas que tiveram a doença tornam-se permanentemente imunes. O desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 está avançado, na última fase de testes, mas hoje qualquer fala sobre início da aplicação da vacina é mera especulação.

Pernambuco/Brasil

Os dois primeiros casos de coronavírus (Sars-Cov-2) em Pernambuco foram confirmados no mesmo 12 de março, aniversário de Recife e Olinda.

As universidades e as instituições de ensino técnico anunciaram, no dia 15, a suspensão das atividades. Um decreto do governo estadual suspendeu todas as atividades de ensino das redes pública e privada a partir de 18 de março.

Seis meses depois, Pernambuco (com 9,2 milhões de habitantes) contabiliza 136.853 casos de Covid-19 e 7.888 mortes confirmadas. No Brasil são 4.356.690 casos e 132.297 mortes.

Paraguai

No dia 10 de março, três dias após a confirmação do primeiro caso, o governo do Paraguai anunciou a suspensão de eventos públicos em grande escala e atividades educacionais por 15 dias para conter a disseminação do coronavírus.

O Paraguai fechou a Ponte da Amizade no dia 18 de março. Só poderiam entrar moradores do país, mas somente depois de passarem por uma quarentena de 14 dias.

Ignorado pela imprensa brasileira, que parece só ter olhos para Estados Unidos e Europa, o Paraguai (6,9 milhões de habitantes) contabilizou, até hoje, 28.367 casos de Covid-19 e 539 mortes.

Argentina

No dia 12 de março, a Argentina confirmou dez novos casos em Buenos Aires e nas Províncias de Buenos Aires, Chaco e Córdoba, elevando o total de casos para 31. No dia seguinte, a segunda morte no país ligada ao novo coronavírus foi confirmada.

Com uma população de aproximadamente 44 milhões de pessoas, A Argentina soma, até agora, 565.433 casos de Covid-19 e 11.667 mortes, conseguindo manter um dos mais baixos números de mortes pela doença nas Américas.

Nas Fronteiras da Pandemia

Texto: Hugo Peixoto
Fotos: Nara Viana e Hugo Peixoto

Confira a série completa:

Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 1
Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 2
Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 3
Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 4
Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 5

4 comentários sobre “Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 5 (Final)

  1. Pingback: Nas Fronteiras da Pandemia | #PartiuInterior

  2. Pingback: Nas Fronteiras da Pandemia – Parte 2 de 5 | #PartiuInterior

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