Cinco dias inesquecíveis na Ilha de Marajó – PA (parte I)

DSC_0495edit

A dança, a música e o artesanato da Ilha de Marajó. As artes e os sabores da Ilha de Marajó. Uma viagem pela cultura marajoara. Ilha de Marajó: é como voltar no tempo. Difícil de chegar, difícil de esquecer. Qualquer um desses títulos representaria bem o que foram os cinco dias em Soure, na Ilha do Marajó. Mas, neste primeiro texto de uma série de três, decidimos resumir um pouco de tudo em um só adjetivo: inesquecível.

Visitar a Ilha de Marajó é visitar um Brasil distante, que ficou guardado no tempo e, por isso mesmo, especial. Esqueça a ideia de ilha paradisíaca, com praias de águas mornas e cristalinas, dias de agitação e noites badaladas. Lá o que encanta e atrai são a simplicidade e a certeza de que você está em um lugar único. O lugar do carimbó, do lundu, dos búfalos que pastam pelas ruas de terra, da carne de búfalo e do queijo de marajó.

COMO CHEGAR

Você chega em Soure de navio ou de lancha rápida. O transporte de passageiros é feito diariamente, com embarque no terminal do galpão 9 da Estação das Docas, em Belém. As passagens custam entre R$ 35 (para o terminal de Salvaterra) e R$ 48 (direto para Soure). A lancha rápida sai a partir das 7h e a viagem dura cerca de 1h30, já de navio, a viagem é bem mais longa: 3h30.

IMG_20170917_085057 edit

O percurso pela Baía do Marajó é de aproximadamente 80 km de muitas, muitas ondas. Assim, quem tiver problema com enjoo, não esqueça de tomar alguma medicação 30 minutos antes da viagem e evite se alimentar neste período. Entre os meses de setembro e novembro, os ventos são fortes e “a maré joga demais”, como dizem os moradores, que recomendam viajar pela manhã – quando os ventos estão menos fortes.

Ah, se for no domingo, você vai descer em Salvaterra e de lá pegar uma van/micro-ônibus para Soure. Foi o nosso caso. Viajamos com o Edgar, que foi super-atencioso e acertou tudo com a gente na noite do dia anterior à viagem (Edgar Turismo & Transporte: 91-99378-7711). As empresas que fazem o transporte fluvial são a Banav (www.banav.com.br) e a Arapari (91-3241-4977).

20170921_053711 edit

COMO SE DESLOCAR NA CIDADE

Creio que nos cinco dias que estivemos lá, não vimos mais que 20 carros. O transporte é de táxi, sem taxímetro, custa entre R$ 20 (o mínimo, dentro da cidade) a R$ 90 (ida e volta, para a Praia do Pesqueiro, por exemplo), ou de moto-táxi. Outra opção muito boa é alugar uma bicicleta, que sai por R$ 2 a hora, em média, e dá para negociar a diária. Também dá para fazer muitos trechos caminhando, pois é muito fácil se localizar em Soure – as ruas e travessas são todas numeradas – e mesmo à noite, em que muitas ruas estão bem escuras, o risco de você ser assaltado é bem pequeno.

Sempre peça indicação de taxistas e moto-taxistas ao pessoal da pousada, e confirme se é realmente seguro ir caminhando ou de bicicleta para determinados locais.

ONDE COMER
Perto da pousada onde ficamos hospedados, a melhor opção para refeição é o Solar do Bola. O restaurante serve pratos típicos e pizzas de sabores tradicionais ou nem tanto, como camarão com jambu, por exemplo. O lugar é simples, o preço é justo.

Também vale a pena conhecer o Café de Soure, conhecido por lá também como “o crepe do francês”. Lá você encontra pratos bem legais com ingredientes locais a um preço muito bom. O lugar é aconhegante e, do lado de fora, dá para você observar um pouco da rotina da pequena cidade.

Para aliviar o calor: sorvete Ice Búfalo, que leva leite de búfala, doce de leite de búfala e queijo de marajó. Descobrimos este sorvete por acaso, quando paramos na Ilha Bela Pousada e Restaurante para tomar uma água e descansar do passeio de bicicleta, e, olhe: é muito bom!

DSC_0438 edit

DSC_0476edit

NOS PRÓXIMOS TEXTOS
As praias, as fazendas e o rio Paracuari (Parte II)
Artesanato, dança e música na Ilha do Marajó (Parte III)

José Bezerra e a arte bruta do Catimbau

No universo que é o Vale do Catimbau, onde ventos e pedras moldam a imaginação, de repente, a branca e espinhosa caatinga se confunde com aves, lagartos, cobras, cabeças e pessoas de madeira, que se espalham pelo chão quente e avermelhado, em volta uma casa simples, de taipa. Paredes, animais e arte, tudo feito à mão. É o mundo de José Bezerra, escultor.

José Bezerra 7

Sertanejo, de pele dourada, cabelos grisalhos e chapéu de couro, José Bezerra recebe a todos ali, no seu próprio mundo. Entre as peças que repousam no chão seco, ele conta que tudo aquilo começou em um sonho. Sonhou com uma escultura e algo lhe dizendo que “seria um grande artista”. Pronto, acordou e partiu pela vegetação em busca do pedaço de madeira que viu enquanto dormia. Fez a escultura e foi apenas a primeira.

José Bezerra 1

O artista tem a preocupação de trabalhar com galhos caídos, não corta a madeira da caatinga para fazer suas peças. “Eu olho a madeira no chão, vejo um pássaro, vou lá e talho o pássaro”, conta. Bezerra afirma que precisa comprar madeira em Petrolina para esculpir a maior parte de suas peças.

Lá no ateliê, de paredes de taipa, teto de palha e chão de lascas de madeira, o Zé Bezerra conta um pouco de sua história, além de causos e nos mostra outro talento: a música. Com um berimbau de madeira, chaleiras e arame, ele canta as próprias músicas, de improviso. “Eu vou juntando as letras, acrescentando uma coisa aqui, outra ali, e nunca uma música sai igual à outra”.

José Bezerra 3

O toque rápido e preciso no instrumento monocórdico nos remete às nossas origens árabes – que explora os diversos tons, semitons e tudo o que mais tiver entre cada um deles. É um som puro, longe das convenções e padrões teóricos da música ocidental, é bruto, e, por isso, belo.O timbre e a afinação do artista impressionam, e é quase impossível não querer fazer um som junto com ele e fazer parte daquele mundo (agora sonoro) por alguns minutos.

José Bezerra 4

Tentei tocar o berimbau e ele logo pediu licença para ir em casa. Voltou com uma zabumba e disse: “vamos lá?”.

Ditou o pulso, o ritmo, e cantou o Sertão.

José Bezerra 5

Bezerros: um passeio pelo artesanato de Pernambuco

Não era o que havíamos planejado para o domingo, mas imprevistos e frustrações com o nosso destino inicial  nos fizeram esticar a viagem até Bezerros, a cerca de 108 quilômetros do Recife. A decisão de mudar o rumo foi ali mesmo, na estrada, e a ideia era conhecer o Memorial J.Borges, o Centro de Artesanato, e um pouco mais sobre a tradição do Papangu. Arriscamos.

A sinalização de turismo (marrom) e as placas personalizadas nos levaram até o ateliê de Lula Vassoureiro, um dos principais artesãos de máscaras de papangu, mas talvez por ser num domingo, encontramos o local fechado.

Seguimos para o Centro de Artesanato de Pernambuco, às margens da BR-232, no sentido interior-capital. Confesso que esperava encontrar um espaço apenas dedicado aos artistas locais e ao colorido dos papangus, mas fomos surpreendidos com um lugar muito organizado, bonito, e com uma diversidade que impressiona.

edit-dsc_0594edita-dsc_0549

O Centro é dividido em duas partes: museu e loja. Para entrar no museu, paga-se uma taxa baratinha, apenas R$ 2, e a visita é guiada. Lá é possível encontrar peças que representam o artesanato de pelo menos 26 cidades de Pernambuco. O barro de Caruaru, Tracunhaém e Petrolina, o bordado de Passira, as redes de Tacaratu, a renascença de Pesqueira, os mamulengos de Glória do Goitá e os bonecos de madeira articulados de Carpina, e muitos outros.

editdsc_0543

editdsc_0574

Os ambientes têm uma iluminação especial, que ressalta cada detalhe das peças. Tudo é sinalizado e muito bem explicado pela guia. É uma ótima oportunidade para conhecer os mestres e a essência do artesanato pernambucano em um só lugar.

editdsc_0565editdsc_0558

Terminada a visita, vale a pena passar na loja, que reúne grande variedade de peças – desde as lembrancinhas até as mais caras, para decoração.

Melhor em outro dia
Saímos do Centro de Artesanato bem satisfeitos e fomos visitar o Memorial J. Borges, também fechado naquele domingo. Pretendemos voltar lá e no Lula Vassoureiro outro dia, mas fica a dica: melhor ir em dia de semana ou, talvez, no sábado pela manhã.

Mas isso acontece: a ida para Bezerros não foi planejada, assim, não tivemos como checar o horário de funcionamento dos locais com antecedência. Conhecer o Centro de Artesanato e relembrar tantos elementos do interior de Pernambuco valeu a viagem!

edita-dsc_0552

HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO
O Centro de Artesanato de Pernambuco de  Bezerros funciona de segunda a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos, das 9h às 13h.

Tracunhaém: um passeio pelos ateliês (Parte II)

Para quem tem disposição e curiosidade de sair descobrindo as cidades aos poucos, em Tracunhaém a dica é visitar os ateliês. Geralmente eles funcionam nas próprias casas dos artesãos, e isso – como tudo na vida – tem suas facilidades e dificuldades.

Vamos começar pelas facilidades. Ao visitar um ateliê, você provavelmente vai conhecer o artista e vê-lo trabalhar com sua equipe. Além de saber os detalhes sobre a elaboração das peças, é possível também negociar e fazer sua encomenda – dizer o tamanho da peça que você deseja, algum detalhe especial ou a quantidade, por exemplo.

A dificuldade que encontramos foi justamente para localizar os ateliês. Tudo que nós tínhamos era um mapa encontrado em um site, e que nos ajudou bastante: através dele chegamos ao Centro de Artesanato, e localizamos três ateliês. Mas facilitaria bastante se o município contasse com uma sinalização específica para isso (tipo uma Rota dos Ateliês, quem sabe?) e algum material impresso, com mapinhas, distribuído no Centro de Produção Artesanal.

Fomos ao ateliê do Mestre Zuza, localizado na mesma calçada do Centro de Artesanato, mas havia um grupo gravando um vídeo com ele, então decidimos não atrapalhar. Seguimos para o Ateliê do Zezinho (Zezinho de Tracunhaém), onde fomos recebidos por dois dos seus filhos, Nando e Carlos. 

DSC_0212edit.JPG

Ao entrar na casa, você logo encontra pinhas, esculturas e presépios, que, por sinal, são ótimas opções para presentear nesta época do ano.

dsc_0192editdsc_0209edit

Também acompanhamos o trabalho cuidadoso dos artistas no torno e na montagem das pinhas.

dsc_0201editdsc_0203editdsc_0206edit

Em resumo, o Centro de Artesanato é mais indicado para quem quer fazer um passeio rápido. Já para quem quer conhecer o artesanato de Tracunhaém mais a fundo, o ideal é passear pelos ateliês. Em ambos os casos, fique atento à dica abaixo.

LEVE DINHEIRO
Um amigo meu já tinha dado essa dica, mas eu confiei no meu senso de economia (pãodurice) e levei bem pouco. Mas aí, à medida em que você começa a ver as peças, inevitavelmente, começa a imaginá-las sobre algum móvel da sua casa, da casa dos pais, dos avós…

O detalhe é que muitos locais não aceitam cartão de crédito/débito, e a cidade tem poucas opções para sacar: apenas uma agência de um banco privado e uma casa lotérica, no centro. Então, para evitar perder tempo procurando onde sacar, não esqueça: leve dinheiro.

dsc_0214edit

PARA A PRÓXIMA VISITA
Enquanto escrevíamos este post, encontramos uma lista com endereço e contatos de vários artesãos. Já está aqui, para utilizarmos na próxima visita.

Tracunhaém: boas histórias modeladas no barro (parte I)

Um artesão de Tracunhaém, interior de Pernambuco, descobre que suas peças estão sendo negociadas pelo dobro do preço no Sudeste do país, então reúne a família e parte para o Rio de Janeiro em busca de visibilidade. Esse é o enredo da novela Coração Alado – escrita por Janete Clair e estrelada por Tarcísio Meira,  exibida entre os anos de 1980 e 1981 – que projetou a pequena cidade da Zona da Mata nacionalmente e tem muito a ver com nossa visita do dia 8 de outubro.

juca-pitanga

Tracunhaém (a 58 km do Recife) é referência na arte figurativa em barro desde bem antes da novela. Para se ter uma ideia, o nome da cidade significa “panela de formiga”. Terra de grandes mestres na arte de dar forma ao barro, é repleta de peças expostas nas calçadas, lojas e ateliês. Essa imagem das ruas estreitas de Tracunhaém passeia pela minha memória (Hugo) desde a infância, e invariavelmente desemboca noutra lembrança: uma escultura que minha mãe ganhou quando trabalhava na cidade, na época da exibição da novela, e que decorou a casa da minha avó até ela nos dar de presente, há cerca de dois anos. Pois bem, hoje foi dia de revistar a cidade e ver que ela é muito mais rica do que parece.

Logo na principal via de acesso é possível ver várias peças à venda, mas decidimos ir direto ao Centro de Produção Artesanal, que funciona em um casarão no centro da cidade. No local é possível conhecer e comprar peças de vários artesãs/ãos, com preços que vão de R$10 a R$ 700.

dsc_0163edit

Dá para passar horas admirando os detalhes e escolhendo o que levar.

dsc_0161editdsc_0166edit

Sentimos falta de guias – para contextualizar, falar da história da cidade e dos artistas – e de sinalização. No início, até ficamos um pouco frustrado, com receio de que nosso passeio se resumisse a um local de vendas. Mas foi só ir além, visitar a área de produção dos artesãos que logo tudo mudou.

dsc_0167editdsc_0177editdsc_0181dsc_0174editdsc_0185edit

Foi lá que encontramos a Dona Nilda, uma simpática artesã que trabalhava em uma escultura de uma mulher sentada, com o cotovelo sobre o joelho e a mão na cabeça.

– Eu tenho uma escultura de mais de trinta anos, bem parecida com essa. Será que foi a senhora que fez?, perguntei.
– Pode ser. É Juca Pirama, a da novela Coração Alado, com Tarcísio Meira. Ele fazia o papel de um artesão que saiu daqui para o Rio de Janeiro e venceu na vida. Na época, a escultura que apareceu na novela inaugurou um estilo aqui em Tracunhaém e influenciou muitos artistas, explicou.

Ela contou que começou a produzir pequenas bonecas de barro quando tinha entre dez e doze anos de idade. Com o sucesso da novela, fez as primeiras Juca Pirama, depois foi aumentando, aumentando, desenvolvendo o estilo, até chegar ao tamanho da peça em que ela estava restaurando quando conversou com a gente: cerca de 1,5 metros.

– Depois eu juntei as esculturas do homem e da mulher e comecei a fazer essas esculturas eróticas, essas posições. Isso é tudo da minha cabeça, contou modelando um sorriso orgulhoso de artista com timidez de senhora.

dsc_0156

Passeamos por outros galpões, acompanhamos o trabalho de outros artesãos e vimos as peças queimarem no forno à lenha, mudando do cinza úmido para o marrom claro – apesar do calor de fogo e sol que não nos deixa chegar muito perto.

Perto de irmos embora, pedimos para fotografar Dona Nilda. Ela nos reapresentou o centro, falou da cidade e sua origem indígena, da própria história. Nos despedimos do Centro de Produção Artesanal sorrindo com ela, falando sobre as coisas boas da vida.

dsc_0189edit

CURIOSIDADES

  • De acordo com o livro Folkcomunicação no contexto de massa, a escultura utilizada na novela se chamava Juca Pitanga – mesmo nome do personagem do protagonista, interpretado por Tarciso Meira.
  • Ainda segundo o livro, a peça teria sido feita por um artesão do Sul do País, exclusivamente para a novela, mas como muitos turistas chegavam na cidade para comprar “a escultura da novela”, vários artesãos passaram a produzi-la.
  • A escultura é mais conhecida como Juca Pirama, talvez por influência do poema indianista de Gonçalves Dias. (E se o pessoal de Tracunhaém rebatizou, isso é o que vale e é assim que vou chamar!).
  • A primeira cena da novela são trechos da Paixão de Cristo, com José Pimentel, e foi gravada em Nova Jerusalém (clique aqui e assista ao primeiro capítulo).
  • Quem nasce em Tracunhaém é tracunhaense.


DICA IMPORTANTE

O Centro de Artesanato funciona aos domingos, mas não a área de produção. Então, quem quiser conhecer artesãos e artesãs ou vê-los trabalhando nas peças, é melhor visitar o local em dias úteis ou no sábado. É interessante, pois a maioria trabalha com encomendas e assim é mais fácil você fazer a sua.