Tracunhaém: um passeio pelos ateliês (Parte II)

Para quem tem disposição e curiosidade de sair descobrindo as cidades aos poucos, em Tracunhaém a dica é visitar os ateliês. Geralmente eles funcionam nas próprias casas dos artesãos, e isso – como tudo na vida – tem suas facilidades e dificuldades.

Vamos começar pelas facilidades. Ao visitar um ateliê, você provavelmente vai conhecer o artista e vê-lo trabalhar com sua equipe. Além de saber os detalhes sobre a elaboração das peças, é possível também negociar e fazer sua encomenda – dizer o tamanho da peça que você deseja, algum detalhe especial ou a quantidade, por exemplo.

A dificuldade que encontramos foi justamente para localizar os ateliês. Tudo que nós tínhamos era um mapa encontrado em um site, e que nos ajudou bastante: através dele chegamos ao Centro de Artesanato, e localizamos três ateliês. Mas facilitaria bastante se o município contasse com uma sinalização específica para isso (tipo uma Rota dos Ateliês, quem sabe?) e algum material impresso, com mapinhas, distribuído no Centro de Produção Artesanal.

Fomos ao ateliê do Mestre Zuza, localizado na mesma calçada do Centro de Artesanato, mas havia um grupo gravando um vídeo com ele, então decidimos não atrapalhar. Seguimos para o Ateliê do Zezinho (Zezinho de Tracunhaém), onde fomos recebidos por dois dos seus filhos, Nando e Carlos. 

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Ao entrar na casa, você logo encontra pinhas, esculturas e presépios, que, por sinal, são ótimas opções para presentear nesta época do ano.

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Também acompanhamos o trabalho cuidadoso dos artistas no torno e na montagem das pinhas.

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Em resumo, o Centro de Artesanato é mais indicado para quem quer fazer um passeio rápido. Já para quem quer conhecer o artesanato de Tracunhaém mais a fundo, o ideal é passear pelos ateliês. Em ambos os casos, fique atento à dica abaixo.

LEVE DINHEIRO
Um amigo meu já tinha dado essa dica, mas eu confiei no meu senso de economia (pãodurice) e levei bem pouco. Mas aí, à medida em que você começa a ver as peças, inevitavelmente, começa a imaginá-las sobre algum móvel da sua casa, da casa dos pais, dos avós…

O detalhe é que muitos locais não aceitam cartão de crédito/débito, e a cidade tem poucas opções para sacar: apenas uma agência de um banco privado e uma casa lotérica, no centro. Então, para evitar perder tempo procurando onde sacar, não esqueça: leve dinheiro.

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PARA A PRÓXIMA VISITA
Enquanto escrevíamos este post, encontramos uma lista com endereço e contatos de vários artesãos. Já está aqui, para utilizarmos na próxima visita.

Tracunhaém: boas histórias modeladas no barro (parte I)

Um artesão de Tracunhaém, interior de Pernambuco, descobre que suas peças estão sendo negociadas pelo dobro do preço no Sudeste do país, então reúne a família e parte para o Rio de Janeiro em busca de visibilidade. Esse é o enredo da novela Coração Alado – escrita por Janete Clair e estrelada por Tarcísio Meira,  exibida entre os anos de 1980 e 1981 – que projetou a pequena cidade da Zona da Mata nacionalmente e tem muito a ver com nossa visita do dia 8 de outubro.

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Tracunhaém (a 58 km do Recife) é referência na arte figurativa em barro desde bem antes da novela. Para se ter uma ideia, o nome da cidade significa “panela de formiga”. Terra de grandes mestres na arte de dar forma ao barro, é repleta de peças expostas nas calçadas, lojas e ateliês. Essa imagem das ruas estreitas de Tracunhaém passeia pela minha memória (Hugo) desde a infância, e invariavelmente desemboca noutra lembrança: uma escultura que minha mãe ganhou quando trabalhava na cidade, na época da exibição da novela, e que decorou a casa da minha avó até ela nos dar de presente, há cerca de dois anos. Pois bem, hoje foi dia de revistar a cidade e ver que ela é muito mais rica do que parece.

Logo na principal via de acesso é possível ver várias peças à venda, mas decidimos ir direto ao Centro de Produção Artesanal, que funciona em um casarão no centro da cidade. No local é possível conhecer e comprar peças de vários artesãs/ãos, com preços que vão de R$10 a R$ 700.

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Dá para passar horas admirando os detalhes e escolhendo o que levar.

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Sentimos falta de guias – para contextualizar, falar da história da cidade e dos artistas – e de sinalização. No início, até ficamos um pouco frustrado, com receio de que nosso passeio se resumisse a um local de vendas. Mas foi só ir além, visitar a área de produção dos artesãos que logo tudo mudou.

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Foi lá que encontramos a Dona Nilda, uma simpática artesã que trabalhava em uma escultura de uma mulher sentada, com o cotovelo sobre o joelho e a mão na cabeça.

– Eu tenho uma escultura de mais de trinta anos, bem parecida com essa. Será que foi a senhora que fez?, perguntei.
– Pode ser. É Juca Pirama, a da novela Coração Alado, com Tarcísio Meira. Ele fazia o papel de um artesão que saiu daqui para o Rio de Janeiro e venceu na vida. Na época, a escultura que apareceu na novela inaugurou um estilo aqui em Tracunhaém e influenciou muitos artistas, explicou.

Ela contou que começou a produzir pequenas bonecas de barro quando tinha entre dez e doze anos de idade. Com o sucesso da novela, fez as primeiras Juca Pirama, depois foi aumentando, aumentando, desenvolvendo o estilo, até chegar ao tamanho da peça em que ela estava restaurando quando conversou com a gente: cerca de 1,5 metros.

– Depois eu juntei as esculturas do homem e da mulher e comecei a fazer essas esculturas eróticas, essas posições. Isso é tudo da minha cabeça, contou modelando um sorriso orgulhoso de artista com timidez de senhora.

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Passeamos por outros galpões, acompanhamos o trabalho de outros artesãos e vimos as peças queimarem no forno à lenha, mudando do cinza úmido para o marrom claro – apesar do calor de fogo e sol que não nos deixa chegar muito perto.

Perto de irmos embora, pedimos para fotografar Dona Nilda. Ela nos reapresentou o centro, falou da cidade e sua origem indígena, da própria história. Nos despedimos do Centro de Produção Artesanal sorrindo com ela, falando sobre as coisas boas da vida.

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CURIOSIDADES

  • De acordo com o livro Folkcomunicação no contexto de massa, a escultura utilizada na novela se chamava Juca Pitanga – mesmo nome do personagem do protagonista, interpretado por Tarciso Meira.
  • Ainda segundo o livro, a peça teria sido feita por um artesão do Sul do País, exclusivamente para a novela, mas como muitos turistas chegavam na cidade para comprar “a escultura da novela”, vários artesãos passaram a produzi-la.
  • A escultura é mais conhecida como Juca Pirama, talvez por influência do poema indianista de Gonçalves Dias. (E se o pessoal de Tracunhaém rebatizou, isso é o que vale e é assim que vou chamar!).
  • A primeira cena da novela são trechos da Paixão de Cristo, com José Pimentel, e foi gravada em Nova Jerusalém (clique aqui e assista ao primeiro capítulo).
  • Quem nasce em Tracunhaém é tracunhaense.


DICA IMPORTANTE

O Centro de Artesanato funciona aos domingos, mas não a área de produção. Então, quem quiser conhecer artesãos e artesãs ou vê-los trabalhando nas peças, é melhor visitar o local em dias úteis ou no sábado. É interessante, pois a maioria trabalha com encomendas e assim é mais fácil você fazer a sua.

Cachaça e turismo rural no Engenho Sanhaçu

Sabe quando você conhece um lugar muito legal e sai de lá recomendando a todo mundo e planejando voltar com mais pessoas para conhecê-lo também? Foi exatamente isso que aconteceu conosco quando visitamos o Engenho Sanhaçu, em Chã Grande (Agreste de Pernambuco), a 85 km do Recife. Fomos lá pela primeira vez em abril, voltamos no início deste mês com outras pessoas, e aproveitamos para dar o pontapé inicial do nosso projeto.

Apreciador de cachaça e curioso no assunto, tinha interesse em conhecer o engenho desde que experimentei a variedade armazenada em barris de Umburana em um estande de produtos orgânicos montado no Recife Antigo durante a Copa 2014, e soube que o lugar era aberto à visitação. Pode ser que você se pergunte “e qual a graça em conhecer uma produção de cachaça?” e eu respondo: todas. Vou explicar o porquê.

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COMO CHEGAR
É muito fácil chegar à Sanhaçu. Saindo do Recife, basta seguir pela BR-232, cruzar o túnel Cascavel e pegar o primeiro retorno, imediatamente após o posto da Polícia Rodoviária. Depois é só entrar na primeira via à direita, em frente ao hotel Highlander, percorrer uns 8 quilômetros até um posto de combustível e seguir a sinalização. (Clique aqui para ver o mapa).

O asfalto é bem conservado, sem buracos, mas as/os motoristas menos experientes precisam ficar atentas/os às curvas e subidas. Depois do estádio de futebol começa a estrada de barro, e também é bem tranquila. Nas duas vezes que fomos, estava chovendo bastante, mas o carro passou sem dificuldades.


O TOUR RURAL

Os visitantes são recebidos em uma casa muito simpática, com uma decoração bem pernambucana, e que apresenta todos os produtos Sanhaçu, expostos à venda. A visita guiada custa R$ 10 por pessoa e começa ali em frente, abaixo das árvores. O visitante conhece a horta orgânica e, em seguida, todo o processo de produção da cachaça, desde a moagem até a destilação e armazenamento, passando pela fermentação, que guarda um detalhe muito especial: acontece ao som de música clássica.

Outro detalhe é que o engenho é o primeiro do Brasil movido à energia solar.

Na sala de armazenamento – lotada de barris de carvalho, freijó e umburana – é possível conhecer também os prêmios já conquistados pelas bebidas. A Umburana foi eleita a 4ª melhor cachaça do Brasil e a Freijó a 45ª, no Ranking 2016 da Cúpula da Cachaça.

Descendo a escadaria de pneus reutilizados, chega-se a uma área de mata reflorestada pela família para proteger uma nascente. Sob as árvores, a temperatura é cerca de 4° C mais amena e outro detalhe é que com a cobertura vegetal outro olho d’água surgiu. Impressiona também comparar a paisagem atual com a sequência de fotos da mesma área, ainda degradada, em 1997, expostas ali.

A LOJA
O tour termina na loja, onde é possível degustar cachaças, licores, doces, geleias, gelatina de cachaça, mel de engenho, além de comprar souvenirs como taças, copinhos (xotes), canecas, camisas e muito mais. As variedades de cachaças são separadas por barris e por volumes, com garrafas que vão de 100 a 750ml, com preços que variam entre R$ 15 e R$ 115. Considerando meu gosto pela bebida, eu, particularmente, acho impossível sair de lá com as mãos vazias.

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DETALHES
# O sítio tem apenas 2,5 hectares, é a prova de que é possível sim criar um grande negócio respeitando a natureza e com o mínimo de impacto ambiental.

# As frutas colhidas no sítio são usadas para fazer licores e também são vendidas na lojinha.

# É possível também fazer um tour pedagógico. O lugar recebe grupos de até 120 pessoas.

# Em breve será lançada a Sanhaçu Diamante, cachaça pura.

Um detalhe importantíssimo: quando você for lá, pode me chamar, que certamente eu vou de novo.

Horário de funcionamento: Segunda a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos e feriados, das 9h às 15h. Fecha na Sexta-feira Santa, no Dia das Mães e no Ano Novo.
Facebook: @sanhacu